Nossa derradeira gratidão para com a arte – Se não tivéssemos aprovado as artes e inventado essa espécie de culto do não-verdadeiro, a percepção da inverdade e mendacidade geral , que agora nos é dada pela ciência – da ilusão e do erro como condições da existência cognoscente e sensível -, seria intolerável para nós. A retidão teria por conseqüência a náusea e o suicídio. Mas agora a nossa retidão tem uma força contrária, que nos ajuda a evitar conseqüências tais: a arte, como a boa vontade da aparência. (…) Como fenômeno estético a existência ainda nos é suportável, e por meio da arte nos são dados olhos e mãos e, sobretudo, boa consciência para poder fazer de nós mesmos um tal fenômeno. Ocasionalmente precisamos rir de nós mesmos, olhando-nos de cima e de longe e, de uma artística distância, rindo de nós ou chorando por nós; precisamos descobrir o herói e também o tolo que há em nossa paixão do conhecimento, precisamos nos alegrar com a nossa estupidez de vez em quando, para poder continuar nos alegrando com a nossa sabedoria! E justamente por sermos, no fundo, homens pesados e sérios, e antes pesos do que homens, nada nos faz tanto bem como o chapéu do bobo: necessitamos dele diante de nós mesmos – necessitamos de toda arte exuberante, flutuante, dançante, zombeteira, infantil e venturosa, para não perdermos a liberdade de pairar acima das coisas, que o nosso ideal exige de nós. Seria para nós um retrocesso cair totalmente na moral, justamente com a nossa suscetível retidão, e, por causa das severas exigências que aí fazemos a nós mesmos, tornarmo-nos virtuosos monstros e espantalhos. Devemos também poder ficar acima da moral: e não só ficar de pé, com a angustiada rigidez de quem receia escorregar e cair a todo instante, mas também flutuar e brincar acima dela! Como poderíamos então nos privar da arte, assim como do tolo? – E, enquanto vocês tiverem alguma vergonha de si mesmos, não serão ainda um de nós!
(NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 132, aforismo 107).
Você, que inventou tudo isso.
E então fiquei contente porque mesmo sabendo que não há nada aqui, eu te vi.
Cities in dialogue:
Photo 1 : ( Man_KING | London | R.Cambusano )
Text 1: ( Extermínio | Curitiba | Ygor Raduy )
Video: (Introitus and Kyrie | Requiem KV626 by Wolfgang Amadeus Mozart | John Eliot Gardiner conducts the English Baroque Soloists and the Monteverdi Choir | Quoted by Ygor Raduy)
Text 2: (A vida como fenômeno estético | Nietzsche | quoted by Ygor Raduy)
Photos 2- 5: Ensaio sobre o começo de tudo, Juliana Cordaro, Frankfurt am Main
Fecho os olhos e te estendo a mão. Peço que leias. Mas não consegue. Analfabetos das linhas, nós somos. Fechos os olhos e te estendo a mão semiaberta, seminua de nuvens. Peço que toque. Peço que execute o prelúdio no. II. Mas não tocas. Nem cantas. Fecho os olhos e te estendo a mão. Mas não está lá. Nem você. Nem eu. Nem nada.
Fecho os olhos, te estendo a mão, peço que leias.
Fecho os olhos, te estendo a mão: “-Lê.”
Te estendo a mão, peço que venhas – mas não vens.
Peço o prelúdio que precede o toque: “Ouve.”
Mas não ouves, assim como não cantas.
E eu não canto – e já não te ouço mais.
Pois que ousamos desconfiar da palavra,
pois que em nós enraizou-se o sarcasmo,
e investigamos sôfregos o que as palavras são –
e descobrimos que elas não são nada.
Assim, quando te estendo a mão,
sei que não virás a mim
assim como não vou a ti
e nenhum de nós vai a parte alguma.
Seminua de nuvens, estendo a mão
em direção ao nada – estou séria,
porém leve, amarga porém alegre.
E danço nas paredes, em direção a ti,
fecho os olhos, te estendo a mão,
e sei que também danças, embora jamais
te movas – danças seminu, de nuvens.
Fecho os olhos, te estendo a mão,
e já não há mais “nós”, nem “conosco” –
resta sim o prelúdio, esse persiste,
indiferente ao vácuo.
Pois a Música resiste, mesmo que desistamos;
é tudo quebrantado, mas a Música acena e
pede que voltemos à vida, explica que ela
mesma é a vida e que a vida sem ela é erro.
Então voltamos ao prelúdio, vagarosos.
E postados lado a lado
austeros como ruínas
estendemo-nos com esforço:
juntos em direção ao nada.
Cities in dialogue:
Text 1: (seminua de nuvens | Porto Alegre | Gabriela Canale)
Text 2 : (over Gabi´s words | Curitiba | Ygor Raduy)
Photo 1: (shutted eyes | London | R.Cambusano )
Photo 2: (waiting | London | R.Cambusano )
Photo 3: (… | Jaguariúna | Tiago Spina)
Photo4:(…….Nuvens e saudades|Buenos Aires|María Eugenia Arostegui Sebastian)
video: Juliana Cordaro – Frankfurt am Main – nem você nem eu nem nada
Photo 5 (Seminu de Flores | Città del Vaticano | Jaime Scatena)